6. GERAL 13.3.13

1. MEMRIA  O LTIMO REBELDE
2. GENTE
3. JUSTIA  O GOLEIRO PERDEU O JOGO
4. CONSUMO  OS HORRORES DA CARNE
5. RELIGIO  A BATALHA NA CAPELA
6. NEGCIOS  O BOM SONO DOS JUSTOS
7. PERFIL  A MULHER VIRTUOSA
8. CIDADES  A HORA DA VERDADE
9. CELEBRIDADES  O SHOW DE KATE E KIM

1. MEMRIA  O LTIMO REBELDE
     Alexandre Magno Abro, o Choro, era um aliengena no cada vez mais certinho (e insosso) cenrio do rock brasileiro. Seu comportamento era imprevisvel: Choro falava e agia sem pensar e buscava confuses com a mesma volpia com que conquistava fs para sua banda, a Charlie Brown Jr. Essa imprevisibilidade o acompanhou at os ltimos dias. Na quarta-feira 6, ele foi encontrado morto em seu apartamento, no bairro paulistano de Pinheiros. As causas da morte ainda no foram completamente esclarecidas, mas h fortes indcios de que Choro, aos 42 anos, tenha sofrido uma overdose. 
     Choro nasceu em So Paulo, mas est identificado com Santos, cidade para onde se mudou quando linha 17 anos e onde ganhou seu apelido. O Charlie Brown Jr. se tornou uma das bandas mais bem-sucedidas da dcada de 90 por causa de uma mistura bem urdida de punk rock, reggae e hip-hop. Muito desse sucesso se deve ao carisma e s performances tresloucadas do vocalista. Choro nunca foi um letrista  altura de Cazuza e Renato Russo, com quem era comparado. No entanto, suas letras de abordagem direta (o "papo reto", que virou ttulo de uma de suas canes) e a mensagem simples mas persuasiva de que se deve lutar pelo que se deseja despertaram a empatia dos fs. Em certos momentos, ele at surgia com versos realmente inspirados. "Eu descobri que  azul a cor da parede da casa de Deus", prega em Lugar ao Sol. 
     Por vezes, Choro se distanciou da figura de bom malandro que habitava suas composies. Chegou a ameaar uma jornalista porque se sentiu desrespeitado por um artigo sobre a banda; em 2004, agrediu Marcelo Camelo, vocalista do Los Hermanos, com um soco e uma cabeada. De outro lado, ajudava instituies de caridade e custeou o tratamento mdico de um colega, vocalista de um grupo de Santos. Com a morte de Choro, o rock brasileiro perde um de seus ltimos rebeldes. 
SRGIO MARTINS


2. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

COSTA QUENTE
A situao pode ser desconfortvel para muitas atrizes, mas para LUMA COSTA, 24, ficar de calcinha e suti em quase todos os episdios do seriado P na Cova  uma diverso: "Uso muitas das minhas prprias lingeries e prefiro quando h cenas de costas. Acho meu bumbum bonito". Ela faz uma stripper da internet e namora a personagem interpretada pela cantora Martnlia. Arrepios s quando contracena com Marlia Pra, que no costuma suportar belezuras ascendentes. "Quando bato na porta do camarim dela para ensaiarmos o texto d at um frio na barriga", diz Luma, casada h oito meses com o filho de um diretor da Globo. "S teria vergonha da famlia se estivesse gordinha." V-se, no  o caso.

VOV EST COM TUDO
Para cada prato que a apresentadora ANA MAMA BRAGA, 63, faz em seu programa, so produzidas trs amostras, de forma a garantir que tudo d certo no ar. Ana s come um tiquinho de uma delas. Essa no , porm, a nica razo dos 53 quilos exibidos numa praia do Hava onde ela passou frias com a famlia, incluindo o neto. "Durante dez dias, no caf da manh, almoo e jantar, Ana s comeu bife. Eu estranhei, mas ela est linda", elogia o marido, Marcelo Frisoni. O regime seca-tudo partiu de uma boa plataforma. "Tenho gentica privilegiada. Agradeo a Deus por no ter estria nem celulite", diz Ana. "Com esse corpo, ela pode usar biquininho. At dos de lacinho ela gosta", aprova a filha, Mariana Maffei.

GRANDE E FORTE. E TEM PEGADA
No mundo do tnis, o espanhol RAFAEL NADAL  conhecido por ser ambidestro: usa a mo direita em tudo, menos quando joga  ou abraa a namorada, MARIA FRANCISCA PERELLO. E quando joga  de uma capacidade de exploso avassaladora. To impressionante que enfrentou insinuaes de doping. Durante os sete meses em que ficou afastado do esporte para curar uma leso no joelho, ele foi submetido a nove testes de sangue e urina. "Ficamos sob suspeita por causa de gente como Lance Armstrong", queixou-se o tenista, que j foi o primeiro e hoje est em quinto lugar no ranking mundial. De volta s quadras, desmontou um compatriota espanhol.

VEREADORA FURACO. MESMO
J atentaram para o currculo de PRISCILA NOCETTI, 31? Pois anotem, 1) Ela  advogada e tem ps-graduao em criminologia. 2) Com o marido, Rmulo Costa,  dona da Furaco 2000, conhecidssima equipe de bailes funk do Rio de Janeiro. 3)  vereadora, em Niteri. "Minha tese na ps foi "A criminalizao do funk". Todo mundo acha que funkeiro, porque  negro e vem do gueto,  bandido. No ", elucubra Priscila. O primeiro mandato na Cmara veio com uma vantagem extra: "Estou amando usar saia-lpis. Tenho coxonas, e vestir cala jeans  um inferno. Alm disso, os vereadores so uns queridos". Aos prejulgadores, acrescenta: "Estudo ingls e alemo e sou da Igreja Universal do Reino de Deus".

VO LIVRE
As sobrancelhas espessas e tingidas so uma das caractersticas da modelo inglesa CARA DELEVINGNE, 20, que as fs ardorosas gostam de imitar. Algumas cobiam at o espaozinho entre as coxas, tpico das jovens muito altas e muito magras que dominam as passarelas. Considerado indesejvel em outras esferas, o vozinho hoje  oferecido na Inglaterra por clnicas de cirurgia plstica, onde  escavado a poder de lipoaspirao. Rica, de famlia que circula nas altas esferas, Cara faz o tipo doidinha. "Ela no tem medo de nada. J posou com uma tarntula no rosto.  baixinha, mas a forte personalidade e o pedigree compensam", analisa Daniella Helayel, da marca Issa, para quem a modelo do momento j desfilou.


3. JUSTIA  O GOLEIRO PERDEU O JOGO
At o fim Bruno se recusou a admitir o que ficou bem claro para o jri: foi ele o mentor do brbaro assassinato da ex-amante. Agora, vai pagar pelo que fez.

     Ao ouvir de cabea baixa sua sentena  22 anos e trs meses de priso por homicdio triplamente qualificado, sequestro e ocultao de cadver , o ex-goleiro Bruno Fernandes, 28 anos, nem de longe lembrava aquele que, com a pose de dolo do Flamengo, afirmou em entrevista a VEJA sobre o sumio da ex-amante Eliza Samudio: "Quem tem de provar o que est dizendo  quem est me acusando. Eu tenho a conscincia tranquila''. Ele j era ento o principal suspeito do assassinato de Eliza, ocorrido 21 dias antes, mas falava com a segurana da impunidade. Errou. Em meio a todas as enfticas evidncias de sua participao na brbara trama  uma delas a carta revelada por VEJA em que pedia ao ex-amigo e escudeiro Luiz Henrique Romo, o Macarro, que assumisse toda a culpa  , Bruno viu-se, na semana passada, encurralado diante do jri. Pela primeira vez, admitiu: ''No mandei matar, mas sabia que a Eliza ia morrer". De resto, tentou eximir-se daquilo que embasou toda a acusao: a certeza de que ele foi o mentor do crime. Em vo. 
     O relato de Bruno ajudou a elucidar os ltimos momentos de vida da ex-amante. Ele confirmou que o corpo da moa foi esquartejado e os pedaos, jogados aos ces  como j havia declarado seu primo Jorge Luiz Rosa, que testemunhou todo o calvrio de Eliza desde o sequestro, no Rio de Janeiro, at o local onde ela seria assassinada, prximo ao stio do goleiro, em Minas Gerais. Bruno tambm complicou a situao do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, a quem atribuiu o papel de executor. Embora houvesse indcios veementes contra ele, nenhum dos cinco rus tinha mencionado seu nome. Expulso das polcias de Minas Gerais e de So Paulo e suspeito de integrar um grupo de extermnio, o expolicial responde a quatro processos por homicdio. "Tenho medo do Bola", disse o ex-goleiro. que revelou ainda ter dado 30 000 reais a Macarro no dia do crime. 
     Ficou claro tambm que Bola no foi o nico egresso da polcia a tomar parte do enredo. Segundo Dayanne Rodrigues, ex-mulher de Bruno, acusada de sequestro e crcere privado, o policial civil aposentado Jos Lauriano de Assis, conhecido como Zez, ajudou a articular o plano. Dayanne acabou inocentada. J Bola e Zez ainda tero de enfrentar a Justia: o primeiro vai a julgamento em abril; o segundo ser denunciado pelo Ministrio Pblico por sequestro e ocultao de cadver. Quanto mais se revira o caso, mais lama vem  tona. VEJA apurou que ainda corre sob sigilo de Justia uma investigao que tem como alvo mais dois policiais e um advogado, suspeitos de fazer parte do bando que desapareceu com o corpo de Eliza Samudio. Bruno poder cumprir a pena em regime semiaberto a partir de 2017. Seu castigo foi abrandado graas  confisso parcial feita no ltimo instante, entre lgrimas. O promotor Henry Vasconcelos resumiu: "O futebol perdeu um goleiro razovel, mas a dramaturgia ganhou um timo ator". 

LESLIE LEITO E MARCELO SPERANDIO


4. CONSUMO  OS HORRORES DA CARNE
Cerca de 30% da carne consumida no Brasil tem origem clandestina e  produzida em condies medievais.
LAURA DINIZ, JULIA CARVALHO E CAROLINA RANGEL

     O Brasil tem o maior rebanho comercial de gado do planeta,  o principal exportador mundial da carne do animal e ocupa o terceiro lugar no ranking de consumo per capita  com 38,5 quilos por habitante consumidos no ano passado, fica atrs apenas da Argentina e do Uruguai. O tamanho da produo, porm, est longe de corresponder  qualidade da mercadoria. Mais de 30% da carne vendida no Brasil  clandestina  o que significa que no passa por fiscalizao,  frequentemente produzida sob pssimas condies de higiene e apresenta enorme probabilidade de estar contaminada por bactrias e vermes causadores de doenas como a salmonelose e a tenase. 
     A equipe de VEJA percorreu matadouros estaduais e municipais em cinco estados do Brasil e constatou uma situao de tirar o apetite do mais voraz dos carnvoros. Em diversos deles, as peas de carne so carregadas nas costas nuas e suadas de funcionrios para ser cortadas em cima de mesas imundas e mofadas. Sem mscaras, luvas ou botas, os empregados encarregados de separar as peas usam facas enferrujadas, que so "limpas" nas paredes e quinas de mesas.  comum ver o sangue dos animais, carregados at em carrinhos de pedreiro, escorrer diretamente para rios e lagoas prximas. Urubus e cachorros tm presena garantida nesses matadouros e fanam-se dos restos, l mesmo. 
     Essa carne, manipulada em condies medievais e muitas vezes contaminada,  consumida exclusivamente dentro do Brasil  o produto para exportao  obrigatoriamente submetido a inspeo, e das mais rigorosas. Para o exterior, s vo carnes com o selo do Servio de Inspeo Federal (SIF). Cerca de 300 frigorficos do pas operam sob esse sistema. Em cada um desses estabelecimentos h uma equipe de pelo menos dez funcionrios dedicados a avaliar desde a situao dos prdios onde os animais so mortos e embalados at as condies de sade e higiene em que se encontra cada um deles. Amostras da mercadoria so analisadas periodicamente por uma rede de 600 laboratrios clnicos. Esse tipo de carne, alm de ser exportado, abastece os principais centros consumidores do Brasil. Nas capitais e grandes cidades, poucos estabelecimentos se atrevem a vender mercadorias que no tragam o selo federal. 
 sobre as carnes cuja embalagem traz o carimbo de inspeo estadual ou municipal que recaem as maiores suspeitas. Os matadouros visitados pela reportagem de VEJA traziam esses selos. O fato de no estarem sujeitos s mesmas exigncias de fiscalizao que os estabelecimentos que operam sob o selo federal abre brechas alarmantes. Frequentemente, por exemplo, os veterinrios responsveis por atestar a sade dos animais abatidos nesses locais so contratados e pagos pelos prprios abatedouros  e mal aparecem por l. Contentam-se em visitar os abatedouros de tempos em tempos apenas para assinar os laudos de liberao da carne. A frequncia com que essas situaes se repetem atesta que tambm os fiscais, que deveriam monitorar o trabalho dos veterinrios, no tm cumprido direito a sua tarefa. "Inspeo no  s o carimbo, mas um procedimento responsvel e cuidadoso. Se os veterinrios responsveis tcnicos no inspecionam as carnes, e os fiscais no fiscalizam o trabalho dos veterinrios, o carimbo no garante a segurana do produto", diz o mdico veterinrio Antonio Jorge Camardelli, presidente da Associao Brasileira das Indstrias Exportadoras de Carne (Abiec). Nos ltimos cinco anos, foram registradas mais de 80.000 internaes no SUS por ingesto de carne contaminada (veja o quadro nas pgs. 88 e 89).  uma situao que equipara o Brasil aos pases de pior condio sanitria. O governo admite a gravidade do quadro. "Ns nos preocupamos muito com o SIF e no olhamos para a carne que fica no Brasil com outra fiscalizao. Agora, vamos cuidar", diz Enio Marques, secretrio de Defesa Agropecuria do Ministrio da Agricultura. 
     A assinatura de um decreto que dormita nos escaninhos do Palcio do Planalto poderia ser um bom comeo. Ele viabiliza incentivos e contrapartidas para os municpios e estados que conseguirem elevar seus padres de fiscalizao para o mesmo nvel dos federais. Os que forem bem-sucedidos na empreitada ganharo, por exemplo, o direito de vender suas carnes em todo o Brasil, o que no ocorre hoje (o comrcio est restrito aos limites do territrio de origem do produto). Para que isso d certo, porm, o governo no pode afrouxar as exigncias, sob o risco de dar chancela a produtores desonestos. De carimbos que nada garantem e leis que de nada valem, os brasileiros j esto cansados. 


AS DOENAS QUE A CARNE CONTAMINADA PROVOCA
Nos ltimos cinco anos, 81.000 pessoas foram internadas pelo SUS por doenas relacionadas ao consumo de carne, o que resultou em um gasto de 32,5 milhes de reais.

DOENA: FEBRE AFTOSA (A contaminao de humanos  rara. O principal problema da febre aftosa  econmico).
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Todas.
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Por contato com animais enfermos, o ar contaminado por eles ou material infeccioso, atravs de leses mnimas como arranhes e eroses da pele.
CONTAMINAO DO HOMEM: Contato com a pele, ingesto de carnes contaminadas.

DOENA: TUBERCULOSE INTESTINAL E PULMONAR
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Engorda
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Atravs de alimentos contaminados ou por inalao de gotculas de saliva contaminada.
CONTAMINAO DO HOMEM: Contato com sangue, fezes, urina do gado contaminado; ingesto de carnes contaminadas.

DOENA: INFECO POR E. COLI
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Abate
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Aps o abate, durante a desossa, pode haver contaminao pelo prprio material intestinal do animal.
CONTAMINAO DO HOMEM: Ingesto de carnes contaminadas

DOENA: SALMONELOSE
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Transporte
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Bovinos que passam por altos nveis de stress (manejo agressivo na fazenda, falta de gua, superlotao dos caminhes) tm o pH alterado, o que facilita o aparecimento de bactrias como a Salmonella nas carnes.
CONTAMINAO DO HOMEM: Ingesto de carnes contaminadas

DOENA: TENASE (solitria)
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Engorda / refrigerao
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Ingesto de gua, pastagem ou outros alimentos contaminados por fezes de pessoas infectadas com ovos de tnia. No intestino do bovino, os ovos do origem a larvas, que atravessam a parede intestinal, entram na corrente sangunea e se alojam nos msculos.
CONTAMINAO DO HOMEM: Ingesto de carnes contaminadas.

DOENA: LISTERIOSE
PRINCIPAL ETAPA DE PRODUO: Engorda / refrigerao
CONTAMINAO DO GADO OU DA CARNE: Fezes com a bactria L. monocytogenes podem contaminar o couro de outros animais, carcaas e equipamentos de manejo
CONTAMINAO DO HOMEM: Ingesto de carnes contaminadas.

Fontes: Anglica Pereira, professora de zootecnia da USP, e Ministrio da Agricultura.

NA EUROPA, FRAUDE A GALOPE
     No ltimo ms, a Europa descobriu que estava comprando gato por lebre  ou melhor, carne de cavalo por carne de boi. O escndalo comeou na Irlanda, quando um teste em 27 marcas de hambrguer revelou que dez tinham algum percentual de carne equina. Desde ento, testes feitos em todo o continente confirmaram a existncia do problema em outros quinze pases. Especialistas dizem que a descoberta  apenas a ponta do iceberg e que muitas outras fraudes relacionadas  indstria de alimentos sero desmascaradas daqui para a frente. Dois fatores contriburam para o embuste. O primeiro  que a produo de carne de equinos na Europa  realizada em etapas que tm lugar em diversos pases. O abate dos cavalos ocorre principalmente na Polnia e na Romnia. As carnes so processadas na Frana, na Blgica e na Itlia. De l, so distribudas para redes de supermercados presentes em todo o continente. Essa longa cadeia produtiva aumenta as possibilidades de, em qualquer uma das etapas, a carne de cavalo ser equivocadamente etiquetada como bovina e vendida como tal. Mas h um outro fator: a carne de cavalo  bem mais barata que a de boi, o que estimula a fraude. Investigadores franceses estimam que uma nica indstria de processamento de carnes envolvida no escndalo tenha lucrado, com a mistura indevida, 734000 dlares a mais em seis meses. 
     No Brasil, toda carne de cavalo produzida legalmente  exportada para a Europa. Um levantamento de VEJA sobre a apreenso de carne ilegal de cavalo feito em 23 estados brasileiros, mais o Distrito Federal (Bahia, Santa Catarina e Roraima foram os nicos a no enviar os dados solicitados), mostrou que, desde janeiro de 2012, apenas Pernambuco registrou um episdio de apreenso. Em janeiro deste ano, 400 quilos de carne de cavalo e jumento foram apreendidos em Limoeiro, no Agreste. Eles seriam vendidos no Recife como carne bovina. O material foi incinerado e os envolvidos, detidos.

COM REPORTAGEM DE RAFAEL FOLTRAM E FABRCIO LOBEL
     

5. RELIGIO  A BATALHA NA CAPELA
No conclave que comea nesta tera-feira, os cardeais decidiro se salvam a imagem de um grupo de desonestos e pervertidos ou a alma da Igreja Catlica.
ADRIANA DIAS LOPES E MARIO SABINO, DE ROMA

     Chega de metforas eruditas para emoldurar um momento que deveria ser solene. Chega de dourar a hstia. O conclave previsto para comear nesta tera-feira ser uma batalha entre cardeais integrantes de uma Cria corrupta acima da mdia tolervel hoje em dia e os purpurados que, seja por convico moral, oportunidade poltica ou uma mistura de ambas as coisas, querem promover uma faxina no aparato burocrtico do Vaticano  o objetivo do ato extremo de renncia de Bento XVI. A batalha adquiriu contornos precisos durante as reunies preparatrias do conclave, as chamadas congregaes-gerais. Os cardeais americanos desejavam passar a limpo os escndalos financeiros envolvendo o Instituto para as Obras de Religio (IOR), uma espcie de banco central do Vaticano, antes de os 115 eleitores se fecharem na Capela Sistina para votar. Os "cowboys", como so chamados, foravam a divulgao imediata da investigao encomendada por Bento XVI, compilada em dois tomos de 300 pginas, guardados no cofre do apartamento papal. A investigao revelou que eram ainda mais extensas e profundas as maracutaias cardinalcias que vieram  tona por meio do vazamento de documentos roubados da mesa do papa, no caso conhecido pelo nome de Vatileaks. Os americanos depararam com a resistncia dos cardeais da Cria, capitaneados pelo camerlengo Tarcisio Bertone (que, nessa funo, cumpriu o rito de lacrar o apartamento papal depois de declarada a sede vacante. Pois ...) e por seu ex-desafeto Angelo Sodano, cardeal decano que, por ter mais de 80 anos, no participar da eleio do novo pontfice. Bertone chegou a dar um cala-boca pblico nos "cowboys", que vinham concedendo entrevistas coletivas depois de cada reunio. 
     Em sua deciso de enfrentar a Cria, os americanos so movidos por duas razes prticas. A primeira delas  a presso da bilionria organizao laica Cavaleiros de Colombo, a maior financiadora da Igreja Catlica, dentro e fora dos Estados Unidos. Os donos do dinheiro, naturalmente, esto zangados com a farra no IOR, mais que suspeito de lavar fundos mafiosos e ser fonte de enriquecimentos ilcitos. O outro motivo  que, acusados de acobertar a pedofilia crnica do clero de seu pas, os "cowboys" esto sequiosos por mostrar que, apesar de tudo, podem ser uma fora moralizadora  e, assim, mitigar em parte os danos causados ao catolicismo americano pelos padres abusadores. Quanto s razes de conscincia, estas so invisveis, o que no significa serem inexistentes. Ao baterem de frente com os cardeais da Cria, os americanos usaram a estratgia de prolongar ao mximo as congregaes-gerais, a fim de ter mais tempo de angariar apoios. No se pode excluir que tenham convencido cardeais eleitores que no haviam desembarcado em Roma a adiar a sua viagem. O ltimo deles, do Vietn, apareceu somente na quinta-feira, uma semana depois da renncia de Bento XVI. A piada na Itlia  que ele veio de canoa. 
     Tarcsio Benone est fazendo o diabo para evitar a lavagem de batina suja, seu nico propsito. Com a autoridade de camerlengo, o ex-secretrio de Estado de Bento XVI tentou abreviar as congregaes-gerais. No conseguiu. Mandou que os americanos silenciassem. Conseguiu apenas em parte, porque eles passaram a vazar seus pontos de vista e suas descobertas a reprteres italianos.  uma forma de chamar a ateno dos cardeais da "massa de manobra" (veja o quadro abaixo), que lem os jornais locais. Tanto que Bertone, como est no manual da malandragem, investiu contra a imprensa, dizendo que "a mdia procurava interferir no resultado do conclave". Existe "mdia" para toda obra, como bem sabem os brasileiros. O jornal catlico Avvenire, por exemplo, insistia em afirmar que as congregaes-gerais ocorriam num clima de fraternidade e cordialidade, e que as discusses eram sobre o papel pastoral da Igreja e por a vai, ao contrrio do que vm publicando os dirios laicos. Para completar esse quadro de paz e concrdia, receosos de que Bertone e companhia faam o novo papa  e, desse modo, continuem a esconder a podrido que exala de um monturo que combina desvios financeiros com chantagens a dignitrios eclesisticos que participavam de orgias homossexuais , os "corvos" recomearam a gralhar. Os "corvos", nesse caso, so funcionrios do Vaticano encarregados por adversrios de Bertone de alimentar o noticirio com as manobras passadas e presentes de Sua Eminncia. O Vatileaks  fruto da caridade desse pessoal. 
     Dadas as condies sanitrias, talvez fosse conveniente transferir o conclave para um lugar menos nobre do que a Capela Sistina. A villa de Silvio Berlusconi na Sardenha, cenrio principal do "bunga-bunga" do ex-primeiro-ministro italiano, parece mais adequada. Seria ingnuo imaginar que um papa  escolhido de forma completamente alheia a contextos polticos internos e externos. Mas  absurdo que um conclave possa ter um desenlace que leve em conta as convenincias do grupo do capo Bertone. Ele j realizou  a proeza de tirar toda a sacralidade da eleio do papa. Fala-se abertamente, entre os cardeais, na formao de "chapas". Essas chapas tm como cabea o candidato a pontfice e o segundo, o secretrio de Estado que ele prometer nomear. O princpio  o do "eleja um e leve dois". Por causa de sua idade avanada, 78 anos, Bertone no seria papa nem mesmo se exibisse chagas idnticas s de So Francisco de Assis. Seu plano inicial era permanecer na Secretaria de Estado, o principal cargo da Cria. Como ser praticamente impossvel, pretende colocar algum de confiana em seu lugar. Ou seja, para ele, o que importa no  eleger o Servo dos Servos de Deus, um dos mais belos ttulos de um pontfice, e sim um servo a servio dele, como secretrio de Estado, acompanhado de um novo papa que prometa fazer vista grossa s picaretagens no IOR e vizinhanas. 
     A "chapa"' lanada por Bertone e seu grupo, no se sabe se para "queimar" ou no as primeiras votaes, para que haja maior espao de negociao nas seguintes,  formada pelo brasileiro Odilo Scherer, para papa, e pelo italiano Mauro Piacenza, para secretrio de Estado. Ambos pertenciam  Cria e so amigos do camerlengo. Piacenza era prefeito da Congregao para o Clero e fala muito em "renovao". Na condio de latinoamericano, Scherer  um nome atraente para cardeais do Terceiro Mundo. A oposio, liderada pelos americanos, apoia o italiano Angelo Scola, arcebispo de Milo. Scola  inimigo mortal de Bertone e dessa Cria. J contaria com quarenta votos dos 77 necessrios para eleger um papa nesse conclave. Sua candidatura ser apresentada sem um nome fechado para a Secretaria de Estado, mas, se eleito, ele dever nomear um cardeal bem distante da atual administrao do Vaticano. Com Scola, candidato in pectore de Bento XVI, ser inevitvel que ocorra uma mudana dramtica no governo da Igreja, com o afastamento dos corruptos e a cobrana de padres morais mais rgidos. O arcebispo de Milo tambm est disposto a dar um basta na pedofilia clerical, meta inalcanada pelo agora papa emrito  que, aposentado em Castel Gandolfo, faz muito mais do que rezar para que o Trono de Pedro seja ocupado por um homem digno e com fora para reabilitar o catolicismo aos olhos dos prprios catlicos. Ele renunciou por isso, no se pode esquecer, e continua a exercer forte influncia sobre os cardeais. 
     Os fiis brasileiros, no h por que duvidar, ficaro contentes se Odilo Scherer for eleito  ainda mais se,  frente da Igreja Catlica, ele for iluminado pelo Esprito Santo a ponto de frustrar o padrinho Bertone. O cardeal gacho comanda a terceira maior arquidiocese do mundo, a de So Paulo, e, aos 63 anos, tem a idade perfeita para um pontificado nem curto nem longo demais. Outro dado relevante: fala fluentemente italiano, alemo, ingls, francs e espanhol. De 1994 a 2001, morou em Roma, quando fazia parte da Congregao dos Bispos. Hoje, acumula seis cargos em Congregaes e Conselhos Pontifcios. Desde 2009, integra a comisso de cinco cardeais encarregada de fiscalizar o IOR, sem que nada tenha aparecido contra ele. Para cumprir as suas funes, ele vem ao menos uma vez por ms a Roma. "Scherer  mais curial do que a maioria dos cardeais", diz o vaticanista Paolo Rodari. Na capital italiana, o cardeal est hospedado no Pontifcio Colgio Pio Brasileiro, juntamente com dom Raymundo Damasceno e dom Agnelo Majella. Para fugir ao assdio da imprensa, Scherer deixou de caminhar pelas manhs na Villa Doria Pamphili, o maior parque da cidade. Ao ser indagado sobre o fato de ser um "papvel, respondeu: "No h candidatos antes do conclave". H, sim, inclusive em "chapas". Chega de dourar a hstia.

A GEOPOLTICA DO CONCLAVE
Como se dividem os 115 cardeais que elegero o novo papa.

OS ITALIANOS
Esto divididos em duas correntes. A mais forte  liderada por Tarcisio Bertone, que, em 2006, se tornou secretrio de Estado do Vaticano. Ele est mergulhado at o solidu em escndalos financeiros e outros de natureza ainda mais mundana. Para no ter de sair pela porta de servio, quer eleger um papa de sua confiana, pr-Cria e acompanhado de um secretrio de Estado que no vasculhe as sujeiras deixadas por ele. O outro grupo apoia Angelo Scola, arcebispo de Milo, inimigo mortal de Bertone. 37 cardeais.

OS AMERICANOS
Os "cowboys", como so chamados, sempre pragmticos, lutam para que venham a pblico as culpas no escndalo do banco do Vaticano. Falantes como nunca durante as congregaes-gerais, fizeram um "pacto de transparncia" para amenizar sua grande fraqueza: os casos de pedofilia acobertados por eles em seu pas. Apoiam Angelo Scola. Seu segundo candidato  o canadense Marc Ouellet, de 68 anos. 20 cardeais.

A "ALIANA RENANA"
Esse grupo tende a fortalecer-se, assim como ocorreu no ltimo conclave. Aproximou-se dos americanos e poder formar um conjunto extremamente forte.  composto de alemes, holandeses, belgas, checos, franceses e cardeais provenientes de pases nrdicos com minoria catlica. A ele juntam-se, ainda, cardeais espanhis e latino-americanos. 20 cardeais.

LATINO-AMERICANOS, AFRICANOS E ASITICOS
No formam exatamente um grupo homogneo. Oscilam entre os demais, de acordo com as suas convenincias e os cargos que ocupam na Cria. 14 cardeais.

A "MASSA DE MANOBRA"
Cerca de um quinto dos cardeais pertence  "massa de manobra". Dela fazem parte aqueles nomeados h, no mximo, um ano, com pouca experincia na Cria ou sem amizades estreitas com prelados mais experientes. Provavelmente, decidiro seu voto no ultimssimo instante. 24 cardeais.

MUITO ALM DA HERANA ESPIRITUAL
O Vaticano tem um brao, o APSA, sigla em italiano para Amministrazione del Patrimnio della Sede Apostlica, apenas para gerir a sua fortuna visvel neste mundo. A Igreja Catlica tambm conta com uma rede de escolas, hospitais e financiadores privados para manter suas atividades  e assegurar sua riqueza.

1 milho de imveis so de propriedade do Vaticano
2 trilhes de euros  quanto valem os bens imveis da Santa S ao redor do planeta
1 trilho de euros  o valor dos imveis localizados apenas na Itlia
S em Roma, a Igreja tem um patrimnio avaliado em 9 bilhes de euros
20% do patrimnio de imveis italianos pertence ao Vaticano

 Existem 125.000 hospitais e centros de assistncia ligados  Igreja em todo o mundo
 O total de escolas catlicas nos cinco continentes  de 206.982, com 55 milhes de estudantes
 Pases como Alemanha, ustria e alguns cantes suos recolhem, por meio do estado, impostos especficos de cidados catlicos, repassados s igrejas locais
 O maior financiador privado do Vaticano  a organizao americana Cavaleiros de Colombo, fundada em 1882, que mantm uma seguradora cujos ativos esto na casa dos 16 bilhes de dlares
 Desde que foi criado, em 1981, o Fundo Vicarius Christi, da Cavaleiros de Colombo, amealhou 35 milhes de dlares apenas para as obras caritativas do papa

Instituto para as Obras de Religio (IOR) - o banco central da Santa S 
Oficialmente, as transaes financeiras do Vaticano no so controladas pela Cria, apesar de cinco cardeais pertencerem  "Comisso de Vigilncia" da organizao. Entre eles, o ex-secretrio de Estado Tarcsio Bertone e o brasileiro Odilo Scherer.
Recentemente, o IOR foi acusado de lavagem de dinheiro
 Presidente: o advogado alemo Ernst von Freyberg, nomeado em fevereiro por Bento XVI


6. NEGCIOS  O BOM SONO DOS JUSTOS
Dois irmos egpcios  um deles ficou dez meses preso nos EUA suspeito de participar dos atentados de 2001  criaram uma das maiores redes de lojas de colches do Brasil.
LEONARDO COUTINHO

     Como sempre ocorre, o sucesso  mais difcil de explicar do que o fracasso. O sucesso dos irmos Darwich, donos da marca de colches King Star, no escapa dessa lei. Os concorrentes no entendem como eles conseguiram, em apenas seis anos, transformar um negcio familiar com entregas de porta em porta a bordo de uma Kombi velha em um dos maiores atacadistas em um mercado disputadssimo, mas ainda em franca expanso. As 32 lojas, todas no estado de So Paulo, de Ayman, de 34 anos, presidente da empresa, e Khaled Darwich, de 32, diretor comercial, vendem 20.000 colches por ms. Eles no divulgam o faturamento anual, mas o mercado calcula-o em 250 milhes de reais. "Ningum nunca cresceu to rpido", diz um executivo do setor. Ayman, por sua vez, se surpreende com o espanto dos concorrentes diante do sucesso da King Star. "No tem mistrio. A explicao  muita obstinao e nenhum descanso", diz Ayman. Durante trs anos, ele e o irmo trabalharam dezoito horas por dia reinvestindo todo o lucro na empresa. Atualmente, vendem colches com design prprio, mas com fabricao terceirizada. Com o tempo, outros trs irmos se juntaram a eles. Moram todos na mesma casa, mas j se permitem alguns luxos. 
     Ayman  o rosto sorridente da King Star que os brasileiros conhecem pelos comerciais de televiso. Khaled  recluso, nunca aparece e detesta falar sobre o passado, ainda que seja impossvel ignor-lo. Khaled j foi considerado pelo FBI, a polcia federal americana, suspeito de ser um terrorista islmico e de ter ajudado na organizao dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, que mataram 2977 pessoas. Khaled foi preso e mantido no crcere por dez meses. Foi solto porque as autoridades americanas nunca conseguiram provas para incrimin-lo. Khaled veio para o Brasil disposto a trabalhar, e assim nasceu a King Star. 
     A famlia Darwich, de muulmanos sunitas, veio do Egito para o Brasil em 1972, quando o pai de Ayman e Khaled, engenheiro, foi convidado para trabalhar na fbrica de mquinas pesadas Caterpillar, em So Paulo. Oito de seus nove filhos nasceram no Brasil. Em 1992, um deles morreu atropelado no dia em que comemorava o stimo aniversrio. A tragdia fez com que a famlia retornasse ao Egito. Khaled tinha 10 anos quando chegou a Port Said. Aos 13, apaixonou-se por Nora Nosair, uma colega da escola americana onde estudava. Pouco depois, a famlia de Nora, que tinha cidadania americana, voltou para os Estados Unidos. Khaled quis ir junto. A sogra tentou dissuadi-lo, avisando-o de que seu marido, padrasto de Nora, era um terrorista que cumpria (e ainda cumpre) pena de priso perptua por ter ajudado a planejar a exploso de um carro-bomba no subsolo do World Trade Center, em Nova York, em 1993. Sayyid Nosair, integrante da Al Qaeda,  autor de outro atentado, que resultou na morte do rabino Meir Kahane, em 1990, em Nova York. "Foi um grande erro achar que o parentesco com ele nunca respingaria em mim, que sou contra o terror em nome do Isl", diz Khaled. 
     Aos 15 anos, ele se casou com a namoradinha nos Estados Unidos. Quando o FBI bateu  sua porta em Memphis, no dia 13 de setembro de 2001, Khaled era dono de quatro txis e sonhava em ter uma frota de cinquenta carros. No perodo em que passou na priso, amargou 101 dias seguidos em uma cela solitria em que a luz nunca se apagava. "Perdi a noo das horas e dos dias", diz Khaled. Como tinha passaporte brasileiro, foi deportado para So Paulo, onde desembarcou, em julho de 2002, com apenas 16 dlares no bolso. 
     Seu primeiro emprego no Brasil foi como vendedor de colches em uma loja no bairro do Brs. Dois meses depois, com mercadorias emprestadas por frequentadores de uma mesquita, Khaled montou uma lojinha onde vendia capas de sof, toalhas e lenis. Ali ele trabalhava, comia e dormia. O negcio comeou a ir mal quando resolveu encher o local com colches, "daqueles bem baratinhos". Seus irmos, no Egito, tambm eram pobres. Voltar para junto de sua famlia, portanto, no era uma opo. Ayman, depois de uma tentativa fracassada de entrar na Holanda para conseguir emprego, resolveu se juntar a Khaled no Brasil. 
     Ex-camel de roupas em Port Said, Ayman revolucionou a loja do irmo. Em pouco tempo, os colches encalhados tinham sido vendidos. "Ayman no admite perder uma venda. O cliente s no compra se no tiver dinheiro", diz Khaled. Decidido a enriquecer, Ayman conseguiu um emprstimo de 15.000 reais para abrir uma loja maior e com produtos mais caros. "O nome King Star me ocorreu quando percebi que os clientes pediam colches king size", sem se dar conta de que se tratava de um tamanho de cama, no de uma marca", diz Ayman. Khaled, que se separou da enteada do terrorista depois de voltar ao Brasil, nunca mais se casou.


7. PERFIL  A MULHER VIRTUOSA
Filha de Edir Macedo, Cristiane Cardoso conquista uma legio de leitoras com conselhos para manter o casamento que incluem sexo sempre que o marido quiser e pacincia para com os sapatos que ele larga na sala.
BELA MEGALE

     Sexo antes do casamento, nem pensar. Sexo depois do casamento, sempre que ele quiser  e no me venha com essa histria de dor de cabea.  com ensinamentos assim que Cristiane Cardoso, de 39 anos, se tornou um fenmeno do mercado editorial brasileiro. Seu livro Casamento Blindado  O Seu Casamento  Prova de Divrcio vendeu cerca de meio milho de exemplares desde o lanamento, em junho do ano passado. Escrito em parceria com o marido, Renato Cardoso, ele ensina como fazer uma unio durar, segundo a cartilha de uma "mulher moderna  moda antiga", como ela gosta de se definir. Entre os conselhos dados pela autora esto o de "no falar sobre problemas quando o marido chegar em casa com a cabea quente" nem "se chatear quando ele jogar seu par de sapatos no meio da sala". Coisas que, diz Cristiane, ela aprendeu no bero  um bero famoso. 
     Embora o sobrenome no entregue, Cristiane Cardoso  a filha mais velha e herdeira do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono de um imprio avaliado pela revista Forbes em 1,1 bilho de dlares. Macedo , segundo ela, sua "maior fonte de inspirao e de exemplo, depois de Jesus".  tambm seu patro. Todos os sbados, Cristiane divide com o marido a bancada do programa The Love School  Escola do Amor na Rede Record, de propriedade do pai. A atrao fala de casamento, sexo e famlia  luz dos ensinamentos da igreja e das convices do marido, Renato (leia o quadro na pg. ao lado)  lder inconteste da dupla no programa. Os dois se casaram quando Cristiane tinha 17 anos e Renato era um pastor iniciante na Universal. Por determinao do bispo, mudaram-se para Nova York poucas semanas depois de trocar alianas e passaram os vinte anos seguintes rodando pelo mundo, numa coleta de almas planejada por Macedo que abarcou trs continentes. No fim do priplo, voltaram para So Paulo e Renato se tornou o brao-direito do sogro. 
     Hoje, entre os fiis da Igreja Universal, ela  "dona Cris"; ele, o bispo Renato. Ele conduz cultos com eloquncia e gestos teatrais. Ela, discreta, fala mansa, tem um fraco por diminutivos e um timbre de voz que lembra o da apresentadora Xuxa. Assiste aos sermes do marido da primeira fila e chega a chorar enquanto reza. Vez ou outra, sobe ao palco para tocar teclado. Assim, demonstra seguir  risca os mandamentos da mulher "V", ttulo do seu livro anterior (o "v"  de "virtuosa"). Traduzido para o ingls, o espanhol e o francs, ele se transformou num hit entre os fiis da Universal. "Na igreja, falavam muito dele. Eu nunca tinha lido um livro, mas esse li em um ms", diz Camila Kluck, de 23 anos, estudante de Apucarana, no Paran. A mulher virtuosa, segundo Cristiane,  aquela que prioriza o casamento e no a carreira, executa com afinco e prazer as tarefas domsticas, preocupa-se em enaltecer o marido para que ele "no parea um 'joo-ningum'" e trata de agrad-lo cuidando da aparncia. Alm de dar conselhos, Cristiane grava vdeos ensinando fiis a se maquiar e a fazer chapinha  tcnica que aprendeu nos anos em que morou fora do pas e no tinha regalias de estrela, como agora. Por causa do programa que apresenta na TV do pai, ela dispe de camarim particular, cabeleireiro e maquiador e no pisa na igreja sem batom nem uma bela escova nos cabelos loiros  sempre sem nenhum fio fora do lugar. Antes de A Mulher V, Cristiane havia lanado uma coletnea de textos publicados em veculos da Universal no tempo em que ela morava na Inglaterra: Melhor da que Comprar Sapatos (o ttulo foi escolhido por Renato).
     Embora dedique ao marido tantos elogios quanto devota ao pai, Cristiane sugere que os dois tiveram de usar de certo rigor para formar a mulher virtuosa que ela hoje . Num trecho de Casamento Blindado, a filha do bispo descreve da seguinte maneira o dia de seu casamento: "Foi como se minha mo direita estivesse algemada  esquerda do meu pai, e no altar ele abriu a algema do pulso dele, colocou-a no do Renato, a fechou novamente e passou a chave para ele. Foram 5, 6 segundos de liberdade, cronometrados". 
     Cristiane e Renato tm um filho. Filipe foi adotado em 1998, aos 4 anos de idade, quando o casamento j havia completado sete anos. No blog que mantm na internet, Cristiane menciona que o pai sugeriu ao seu marido que eles no tivessem crianas no incio da unio, de modo que ele pudesse se dedicar de corpo e alma ao seu trabalho na igreja. No mesmo blog, mas em outra ocasio, ela conta que tinha tanta vontade de ter um beb que chegou a fingir para si mesma que carregava um no ventre. "Tomava cuidado na hora de me sentar e frequentemente alisava minha barriga como as grvidas fazem." Mais velha de trs irmos, a primognita do bispo foi uma adolescente angustiada. Alta, loira e de olhos verdes, sempre chamou ateno pela beleza. J sua irm mais nova, Viviane, nasceu com lbio leporino e precisou passar por vrias cirurgias. O contraste entre as duas fazia com que ela se sentisse culpada. "No queria ser bonita, cresci rejeitando todos aqueles elogios", escreveu em seu blog. Naquele tempo, relatou, tinha medo de "ir para o inferno", por causa da sua beleza e suposta perfeio. "Costumava orar 'Deus me perdoe' 100 vezes ao dia, s para me certificar de que ainda estava salva", escreveu. Se o reino de Deus permanece uma incgnita, no reino dos homens. Cristiane faz um baita sucesso. 

A RECEITA DA FELICIDADE
Os mandamentos do amor eterno e da paz conjugal, segundo Cristiane...

ENALTECER O MARIDO
A mulher que no se submete a seu marido acaba castrando-o sem querer. No  a inteno dela, mas ela o faz um joo-ningum. Sem respeito, o homem perde a essncia masculina. Quando voc no lhe cede esse papel no casamento, ele no se sente respeitado e deixa de cumprir o papel de homem da casa"
CASAMENTO BLINDADO - captulo 18, "O envenenamento de uma palavra"

RELEVAR OS SAPATOS JOGADOS NA SALA
"A mulher atual nem sempre tem prazer em cuidar do marido, muito menos da casa. Se ele est com fome, que se vire. Os filhos podem ficar a maior parte do tempo em uma escola e em clubes de esporte para ela ter mais tempo na carreira e outros interesses. E, quando ela chega em casa, no quer ter o trabalho de cozinhar, nem de limpar nada, ento se chateia com o marido por jogar seu par de sapatos no meio da sala"
CASAMENTO BLINDADO - captulo 16, "Quem sou eu? Onde estou?"

NUNCA DIZER NO
"...a Bblia diz que voc no tem o direito de dizer no ao seu marido ou esposa quando ele (ou ela) quiser se relacionar sexualmente. Mulher, no se trata de se tornar escrava sexual do marido. A explicao dada  muito mais bonita e profunda: seu corpo no  seu,  dele, e o corpo dele no  dele,  seu. Vocs pertencem um ao outro. Se um negar o prazer ao outro, estar rompendo a aliana do casamento, alm de dar lugar ao diabo"
CASAMENTO BLINDADO - captulo 19, "A sogra que pedi a Deus "

NO TAGARELAR QUANDO ELE ESTIVER CANSADO
"A mulher tem que oferecer a necessidade do homem de relaxar. s vezes o marido chega em casa com a cabea quente. No  hora de falar sobre problemas. Ela traz estresse em cima do estresse do trabalho"
CRISTIANE - no programa Escola do Amor sobre "Por que os homens perdem o interesse pelas mulheres? "

O GRANDE ERRO
O erro de muitas mulheres  dar a portinha da felicidade sem serem conquistadas"
CRISTIANE - no programa Escola do Amor sobre "Sexo e relacionamento "

...e Renato Cardoso
ENTENDER AS "NECESSIDADES" DELE
"Por que muitos homens casam? Porque ele quer entrar na portinha da felicidade da mulher. Isso no faz dele um animal, s faz dele homem. Se um homem s quisesse amizade, companheirismo, ele se casaria com um pastor-alemo, que d muito menos trabalho"
RENATO - no programa Escola do Amor sobre "Sexo e relacionamento"


8. CIDADES  A HORA DA VERDADE
Depois de dois anos de ocupao no Complexo do Alemo, a bandidagem ainda comanda um naco da favela. Sem extirp-la, no haver vitria definitiva contra o crime.
LESLIE LEITO

     As cenas dos blindados da Marinha espantando a bandidagem de seu maior enclave no Rio de Janeiro  o aglomerado de favelas da Penha e do Alemo, na Zona Noite carioca  correram o mundo e demarcaram um novo captulo na histria do combate ao crime no Brasil. Nunca os marginais haviam perdido poder em um territrio to estratgico. Houve desde a avanos inequvocos nessa rea onde residem 200.000 pessoas e que por dcadas subsistiu  margem do estado. Mas, dois anos e trs meses depois, a batalha do bem contra o mal chegou a uma encruzilhada. A retomada de terreno sob o jugo do crime  ponto nevrlgico da poltica de instalao de Unidades Pacificadoras de Polcia (UPPs)  vem sendo afrontada. No Complexo do Alemo, o foco da resistncia tem nome e lugar: chama-se Areal, um naco do morro de difcil acesso, emoldurado por um matagal de onde se pode acompanhar o vaivm da favela. Para cruzar a linha imaginria que delimita o lugar, s mesmo com a autorizao do bando ali encastelado. Nas poucas vezes em que os policiais atravessaram a fronteira, arrependeram- se. Na ltima, em dezembro, um PM acabou alvejado com um tiro na cabea. O bunker abriga o arsenal blico e uma poro importante da droga que, sim,  vendida por todo o Alemo.  tambm o escritrio do ltimo dos chefes ainda no capturado: Luciano Martiniano da Silva, o Pezo. A polcia sabe que ele vai e volta quela trincheira. 
     Nos ltimos dois meses, VEJA acompanhou a vida no complexo, ouvindo mais de 150 pessoas, entre moradores, policiais e turistas  estes movidos pela curiosidade de pisar numa grande favela e pela vista deslumbrante que se descortina do alto. Chegam ao cume pelo telefrico que virou carto-postal da era das UPPs, j baseadas em 31 antigos domnios do crime no Rio. Por seu relevo tomado de ruelas labirnticas, sua extenso e proeminncia no crime,  o Alemo que impe de longe os maiores obstculos. As primeiras conquistas so visveis. O amontoado de lixo e o emaranhado de fios ilegais pendentes vo aos poucos sendo subtrados da paisagem. A frequncia e o rendimento escolar subiram e o morro avana rumo  formalidade: 460 negcios foram recm-legalizados e h at um shopping  vista. Mas a persistncia dos criminosos e suas constantes exibies de poder, ainda que sem a velha ostentao de fuzis, continuam a intimidar os cidados de bem  e so um lembrete contundente de que  preciso sustentar com mo de ferro a guerra contra a lgica criminosa que sempre reinou. "Nunca tivemos a iluso de que os bandidos fossem desistir fcil. Resta-nos ainda uma longa misso", reconhece o secretrio de Segurana, Jos Mariano Beltrame. 
     A bandidagem se reorganizou em novas bases, agora mais modestas e discretas, instalando seus Q.G.s em locais sem UPP. Os soldados do trfico passaram a circular no Alemo em grupos de cinco ou seis, e no mais em "bondes", s dezenas. Carregam pistolas escondidas e pequenos lotes de drogas, dos quais podem se livrar rapidamente se necessrio. H bocas de fumo nos becos e vielas, e no mais  vista de todos. As poucas apreenses realizadas nas semanas em que VEJA esteve no Alemo mostram que a droga chega j embalada em saquinhos com preo, identificao do contedo e um selo em que se l CV, as iniciais da faco que atua na favela. O pacote pequeno de cocana ("Suave Veneno") custa 3 reais, e o maior ("Avenida Brasil"), 10. Os preos so os mesmos cobrados antes da instalao da UPP. Um economista poderia concluir que a fora pacificadora no acarretou nenhum aumento no custo marginal da cocana na favela  trocadilho que nesse caso tem sua dose de realidade. 
     Os traficantes no arredaram p dos negcios que locam na base do terror. Eles continuam a cobrar um pedgio  ou "taxa", no jargo local  dos vendedores de gs: 5 reais o botijo. No ltimo dia 19 de janeiro, um desobediente, talvez depositando excessiva f nos novos tempos, fez que se esqueceu da tarifa. Foi morto a tiros em uma das praas centrais do complexo. No foi a nica barbrie presenciada por VEJA no Alemo. Em 23 de fevereiro a movimentada Praa do Tero ferveu de gente que foi ao Baile da Paz, iniciativa da UPP para substituir as agora proibidas noitadas promovidas pelos marginais, embaladas a drogas e funks com letras de apologia ao crime. O morador Edival Carvalho Miranda, 39 anos, participou da organizao. Os chefes do trfico sentiram-se ofendidos com a iniciativa. Dois dias depois, veio o castigo. O corpo de Edival foi encontrado com dois buracos de tiro na cabea, sinais claros de execuo. Sinal tambm da antiga e devastadora certeza da impunidade, o combustvel do crime organizado. 
     Do lado da polcia, a favela tambm parece ter voltado ao seu passado de trevas. Quem mais sabe das coisas em uma favela carioca so os mototaxistas. VEJA ouviu de uma dezena deles a mesma histria. Policiais da banda podre esto extorquindo 30 reais mensais dos mototaxistas, a infame taxa de segurana que eles antes pagavam aos bandidos.  
     A presena da UPP na favela tem a dinmica de uma cabea de ponte, o termo militar para descrever a situao altamente instvel em que apenas um pedao do terreno do inimigo foi conquistado. Em uma situao dessas existem duas possibilidades apenas. O avano ou o revs total, com a retomada do territrio pelo inimigo. 
     O revs total  um fantasma que paira sobre a UPP. O avano s ser possvel com uma mudana radical na polcia, a comear pela prpria formao   dos agentes. O propsito mais nobre da UPP  permitir que as instituies da vida civilizada cheguem  populao favelada. Isso significa, antes de mais nada, que os direitos de cidadania das pessoas sero garantidos pelo estado. Nos territrios retomados, os policiais deveriam ser reconhecidos como o brao armado das instituies. Em muitos lugares isso  apenas uma utopia. No ano passado, 46 policiais que atuavam em UPPs foram flagrados e presos por crimes contra a populao local. Esquemas de propina j foram desnudados aos montes em favelas ocupadas  o mais recente no pequeno Fallet/Fogueteiro, no centro do Rio, onde bandidos de farda recebiam mesada de 53.000 reais do chefo da rea, que continua  solta. A VEJA, a Secretaria de Segurana revelou a entrada em operao de um servio de inteligncia montado exclusivamente para investigar e coibir crimes de policiais de UPPs.  uma boa iniciativa, mas insuficiente para impedir o retrocesso. 
     Os militares que fazem seu trabalho com honestidade so alvo constante de tiros de fuzil disparados por traficantes contra suas precrias instalaes  contineres de ao adaptados para abrigar pessoas. Num dia de janeiro, em represlia a incurses da polcia, os marginais cravaram diversos balaos na parede de uma UPP. No custa lembrar que a fora policial foi colocada nos morros para pacific-los. Os frequentes ataques a bala mostram que esse objetivo est longe de ser alcanado. Os tiroteios continuam fazendo parte do cotidiano com a mesma espantosa naturalidade com que um grupo de garotos brincava de guerrear no meio da rua com "armas" feitas com canos de PVC sobre as quais eles fantasiavam: "Essa  uma Desert Eagle. Em casa tenho um FAL e um AK". Se nada for feito, a inocente brincadeira vai evoluir para cenas reais de crimes no futuro. 


9. CELEBRIDADES  O SHOW DE KATE E KIM
Duas das mulheres mais famosas do planeta esto grvidas de cinco meses e no do um passo sem que todo mundo acompanhe. Elas tm estilos 100% diferentes e uma nica coisa em comum: barriga quase zero.

     Cada vez que colocam os saltos altssimos na rua, elas so incansavelmente olhadas, fotografadas e comentadas. Numa coincidncia nada excepcional, uma vez que ambas esto no pico da idade reprodutiva em termos contemporneos e tm marido muito promissor, a americana Kim Kardashian, 32 anos, projetada para a fama pelo derrire polpudo e um programa de televiso no qual ela e a famlia toda se expem sem pudores, e Kate Middleton, 31, a muito esguia futura rainha consorte da Inglaterra, ficaram grvidas quase ao mesmo tempo. So as gestaes mais acompanhadas do planeta, que culminaro em julho com o nascimento de duas meninas, segundo boatos absolutamente no confirmados. Diferentes no estilo em quase tudo, as duas tm em comum o fato de que vivem exatamente da exposio da prpria imagem, levado ao pice pelo atual reality show global da gravidez, atiado pelos sinais exteriores quase imperceptveis dos cinco meses de gestao. 
     Kim e Kate tambm enfrentaram um bocado de reaes negativas no comeo das respectivas trajetrias, Cafona, nova-rica e barraqueira so algumas das qualidades pouco enaltecedoras atribudas a Kim, por causa da maquiagem exagerada, do cabelo chapado, das roupas escandalosas, das colinas de silicone na comisso de frente e das montanhas naturais na de fundos. Sem contar as bebedeiras, a nulidade existencial e as brigas familiares mostradas no reality show. E ainda o vdeo ntimo, que vazou e aumentou tanto a fama dela que muitos hoje juram ter sido amado. O fato  que Kim j era rica de famlia, por causa do pai, um advogado de origem armnia, e aumentou muito o cofrinho, ou, no caso especfico, cofro. Hoje, a fortuna da famlia  avaliada em 80 milhes de dlares, dos quais a metade  de Kim, com sua atilada capacidade de transformar a autopromoo em dinheiro. Grandes grifes de moda que hesitavam em emprestar roupas para envolver suas formas calipgias  1,59 metro de altura, 99 centmetros de quadris, antes da gravidez  hoje disputam quem vai vesti-la.  garantia de que a imagem vai correr mundo, embora ainda de gosto discutvel, como a cala Chlo e a casaca Mugler com que desembarcou em Paris para assistir aos desfiles de moda da estao. 
     A fila  maior ainda na porta metafrica de Kate, que ganhou o ttulo de duquesa de Cambridge ao se casar com o herdeiro nmero 2 da monarquia britnica, o prncipe William. Por respeito  liturgia da famlia real, ela no pode aceitar presentes, mas estilistas e fabricantes fazem qualquer coisa por Kate, inclusive transformar peas de marcas populares em roupas feitas sob medida para seu corpo esbelto, de cintura to fina que ainda permite a ela usar modelos de antes da gravidez, como o casaco chocolate da foto  direita. Kate aprimorou o estilo depois do casamento e procura corresponder  imagem de perfeio que, inevitavelmente, o pblico espera de uma prxima princesa e depois rainha.  sempre simptica, atenciosa e gentil, mas no imune a crticas. Durante o namoro com William, chegou a ser ridicularizada por aceitar os longos (e certamente necessrios) anos de relacionamento antes da unio oficial e at pelo histrico pouco aristocrtico dos pais, um ex-despachante de voos e uma aeromoa que ficaram milionrios ao abrir um negcio de acessrios para festas infantis. Hoje, a oposio qualifica-a principalmente de ftil, deslumbrada e at maquiada demais  ateno para outro ponto de convergncia com Kim. 
     Os membros da realeza, dizem os estudiosos, existem para ser vistos, derivando da uma parte da prpria legitimidade. Ao namorar William e se casar com ele, Kate sabia perfeitamente o tipo de exposio a que deveria se submeter pelo resto da vida. Kim j  uma profissional do assunto do uso da imagem, um campo em que multiplicou as oportunidades ao comear o namoro com Kanye West, um cantor de rap que escapa aos esteretipos. Filho de uma ex-diretora de dois departamentos de lngua inglesa (morta tragicamente durante uma cirurgia plstica), ele chegou a comear duas faculdades de artes plsticas, mas preferiu a carreira da msica, como produtor e cantor. Monetizando a questo, a troca compensou: vale hoje 90 milhes de dlares. Por trs da linguagem chula e do visual vistoso do gnero, cultiva gostos requintados. "Ele  apaixonado por arquitetura, discerne moda, artes plsticas e cinema de qualidade de coisas que s so pretensiosas", atesta o arquiteto paulistano Isay Weinfeld, por cujo trabalho Kanye se interessou e do qual acabou se aproximando. Weinfeld recebeu o casal Kim e Kanye no Carnaval. O cantor est introduzindo a companheira nesse mundo. At ao Louvre a levou durante a ltima temporada em Paris. Quem sabe um dia Kim ainda cruza com Kate em algum vernissage e as duas discutem sobre bebs e Botticelli? O que vai ter de fotos... 
     

